quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Solilóquio

Hoje acordei macambúzio, circunspecto, peripatético, soliloquaz, com coceira pra falar difícil, balbuciando vernáculo castiço, quase como reminiscência de metempsicoses que descreio. A mim bastava o apóstolo Manoel de Barros, que fraseia os melhores versículos de que tenho notícia e que me transportam para o estado mais próximo do que seja uma oração. Oração insubordinada, acrescento. O sujeito da oração - e não o Verbo criador onipotente e cheio de imposturas - cintila e reverbera de forma tão completa que lhe basta a poesia que mina e escorre entre linhas tortas.

Hoje também acordei Graciliano, entranhado e sequioso de substantivos. Antes de escovar os dentes, e misturar ao amargo do pesadelo (qualquer dia eu conto) o adocicado dentifrício matinal, arranquei dos olhos poemas e pérolas junto com as remelas da noite, como quem arranca uma trave evangélica antes que possa criticar o cisco alheio - que obnubila a percepção do imbróglio ambiental em que todos imergimos. Eu avisei que acordei castiço. Procure dicionário a quem faltar leitura, mas queria fazer calar fundo no peito e na mente das vossas excelências para que acendam diogenéticamente a lâmpada da busca pelo gesto limpo, livre da vergonha do conchavo em causa própria. Que se varra a sujeira por baixo dos bigodes de todos os congressos e se paute em regime de urgência a utópica cara limpa dos que não se embriagam com o poder ou cedem aos mais excusos interesses. Lei Seca aos bêbados de ganância!

Sentei no vaso, trono que me cabe nos despachos palacianos que antecedem ao desjejum (quase sempre meia xícara de café com açúcar mascavo e leite em pó desnatado), levando comigo um "Solte os Cachorros" que sempre revisito, para respirar um velho causo de amor entre sexualidade desavergonhada (no melhor sentido) e espiritualidade católica sem reprimendas - que se transfigura em poesia da mais alta estirpe. É meu jeito de agradecer por mais um dia de sol ou de chuva, por ter uma Adélia a me levar pela mão pelo Prado de suas Minas Gerais, como menina da roça que acha natural o que vê cumprir a natureza. Amanheci zelligamente Adélia, busquei minhas partituras para assovio, remexi minha coleção de borboletas e sorri quando percebi que haviam voado pra longe. Amanheci querendo sangrar um poema, entre o baticum da vizinhança, o chiado da panela de pressão onde um assado se inventava pelas mãos da minha neo-pentecostal secretária do lar.

Com a caneca estampada de coqueiros hawaiianos, forjada na China e presente de uma amiga mais que querida, beberiquei meu cafe au lait e passei a vista pelo noticiário que me chega por email. O clima das quartas de final que antecedem à cúpula sobre o aquecimento global parece esquentar e logo esfria. Os que podem e devem fazer a diferença, parecem ceder às pressões dos poderosos interesses por trás da manutenção deste modelo insustentável de desenvolvimento. Não há sentimento de cúpula, e especialistas apontam margens de redução muitas vezes menores que as que os maiores emissores consideram suportável para suas economias baseadas no crescimento desenfreado. O apagão da razoabilidade segue impedindo que se lancem luzes lúcidas sobre a iminência de desastre global. Para as comitivas, tudo é festa. As mordomias só lhes lembra o poder que os cerca (e que os dirige e pressiona, marionetes que são); o caráter público e planetário de seus gestos cede lugar a mis-en-scènes que mal disfarçam o tamanho do problema. Enquanto isso, fico com a impressão de que a maioria esmagadora sequer sabe do que se trata e de que faço parte de uma parcela ínfima cujo pulso acelera só de pensar em Copenhagen onde se matam a pauladas milhares de focas inocentes.

Enquanto isto, o Projeto de Lei do Ato Médico vai sendo aprovado graças ao poderoso lobby da categoria...